Morte do ente querido e o choque no nosso ego.

Meu pai faleceu em 2000, subitamente, vitimado por um avc.

Casara-se com a minha mãe em 1951, portanto, uma relação longa e duradoura.

Pensei que minha mãe não pudesse suportar essa quebra de parceria.  Acompanhei-a muito de perto no período que se sucedeu a morte do meu pai. Como todos que conheço e como também aconteceu comigo, ela perdeu muito peso, deprimiu-se e quieta, sempre quieta, foi levando sua vida de viúva.

Dois anos depois o mesmo viria a acontecer comigo, com a morte da minha mulher. Logo após eu conversando com a minha mãe, perguntei:

-Por que doe tanto isto? Por que nos sentimos tão mal?

Ela sem pestanejar me respondeu:

-Nesses dois anos cheguei a conclusão que sofremos tanto quando perdemos alguém, porque existe muito egoísmo dentro de nós.

Fiquei surpreso. Egoísmo? Mas como?

Pensei que a velinha havia pirado.

-Mãe, como é isso? Egoísmo?

-É, egoísmo! Sentimos muita dor mas não pelo que se foi, mas por nós mesmos. O medo do desconhecido, de como ficaremos, de ficarmos sós. Deixamos de lembrar das pessoas que se foram, pelo o que elas foram, pela saudade que deixaram. Pensamos só no como ficará, onde nós estamos no centro do problema. É a falta da continuidade e do futuro do desconhecido que nos oprime, deprime e entristece. Morrer é tão normal como o nascer, mas deixamos de nos preocupar ou temer o futuro quando alguém nasce. Quando morre, a dor da saudade é muito grande, mas o medo de ficarmos sozinhos e enfrentarmos o mundo é muito maior. Pessoas até sentem um certo sentimento de revolta com o morto, que se confunde com tudo o mais.

-Mas a senhora sente falta do pai?

-Sinto a falta da alegria do teu pai, da forma como ele nos divertia e fazia companhia. De tudo que de bom ele sempre teve. Mas no início me deprimi quase até a morte pois não conseguia separar meus sentimentos. Quando descobri que meu problema era o meu ego, ai sim melhorei.

Sabem, ela tem muito ou quase toda a razão nos sentimentos que nos inundam quando perdemos alguém. Creio que ela tem toda a razão em relação que o futuro desconhecido que mais nos assusta, que mais nos amedronta.

Pensem bem no que eu registrei aqui. Me ajudou muito na minha recuperação depois que conversei e pensei muito no que ela me falou.

 

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